(Matéria retirada do Jornal Diário do Nordeste, publicada em 06 de julho de 2008)
Os Grupos de Teatro Expressões Humanas e Teatro Vitrine - ambos de Fortaleza -, por conta do centenário de nascimento de Guimarães Rosa, resolveram mergulhar na obra do escritor mineiro, em busca de captar-lhe o engenho criador e, a partir daí, construir um texto dramático, inspirando no metafórico e universal sertão que se desenha de dentro e fora do homem. O intuito é o de recriar a literatura e brincar com a reinvenção da oralidade no teatro. Eis o motivo central dessa edição.
Dilatar enigmaticamente o micro para se chegar ao macro e vice-versa; sair do nada para se chegar ao tudo e novamente ao nada num eterno recomeçar, numa travessia silenciosa que se faz circular, repetitiva, ritualística; é assim, que essa aparente irracionalidade constitui-se em permanente fonte de poesia: o que existe dilui-se, desintegra-se; o que não há toma forma e passa a agir, recriando-se. Para valorizar essa concepção, que ora se faz mítica, ora se faz real, pesquisamos ´O Mito do Eterno Retorno´ de Mircea Eliade que ilustra, no espetáculo, a construção desse cosmos onde o real por excelência é o sagrado. Mircea Eliade diz que ´Qualquer território ocupado com vista à fixação ou à sua utilização como espaço vital é previamente transformado de caos em cosmos; isto é, por um ritual, é-lhe conferida uma forma que o torna real.´
Sabe o nosso autor, melhor do que ninguém, fomentar um novo olhar diferenciado e crítico sobre esse pedacinho de universo para, a partir dele, chegar aos mistérios e grandezas feéricas do mundo, onde ´mandavam a audácia e a coragem, e o mundo todo, e o inexplicável e o irracional, e a bondade e a maldade, e o destino e o demônio, e o que o homem de si mesmo não sabe, isto é, as suas profundezas.´
Veredas do inefável
Carlos Drummond de Andrade, outro genial escritor, também penetra esse mundo particular de Guimarães Rosa para tentar nos dizer o indizível, para nos narrar o inenarrável. ´ No final, restam apenas pontos de interrogação, a nos mostrar que esse mundo de fantasia e realidade do sertão mineiro ainda é um mistério a ser desvendado. O sertão místico, a recriação da fala do sertanejo, o poder de descobrir a quinta face, o narrador o inenarrável, o responder- perguntar levando à reflexão, o pacto com o diabo: esse mistério de Guimarães Rosa.´
É exatamente esse mistério do artista que estamos a procurar nesse espetáculo, não para desvendá-lo ou consumi-lo secamente, mas para nos embrenharmos em seus encantamentos que se prolongam nas perguntas, por exemplo, de Riobaldo sobre o sentido da existência humana ou dos grandes mistérios do mundo. Nesse sentido, o ficcionista João Guimarães Rosa, à semelhança da escritura de Clarice Lispector, está contido onde não mais conseguimos calcular a grandeza que se abisma na falta das respostas, uma vez que ambos percorrem a atmosfera pastosa da condição humana.
Os rumos da travessia
A travessia proposta por Guimarães é uma aventura que se propõe ora particular, pequena e próxima, ora universal e infinita. ´O senhor tolere, isto é o sertão... Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima.´ Ou ´O sertão é o mundo´ e ´O sertão é dentro da gente´. Quando o autor se propõe ao jogo do desconhecido ele se lança ao precipício feito uma estrela cadente. Nesse mergulho, ele pára, retirando do fundo do poço, o esplendor do maravilhoso que acaba por dar um novo significado ao cobiçado e insignificante pão nosso de cada dia.
HERÊ AQUINO*
Colaboradora
*Diretora de Teatro
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