terça-feira, 25 de novembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


POVO KARAJÁ

O povo Karajá ou Iny, são os guardiões do Rio Araguaia, de onde seus ancestrais vieram, das águas do Araguaia à superfície da terra. Vivem na Ilha do Bananal em Tocantins.

Caracterizam-se por um ritual com suavidade e força de um canto diversificado de vozes e sons. A dança é marcada por uma precisão de gestos, signos e repetição. Há uma sintonia natural em todo ritual entre eles e os que assistem ou compartilham.

Estão no projeto Rito de Passagem, e fui assisti ontem no Dragão do Mar.

sábado, 18 de outubro de 2008

Três em um... para entendermos Medéia...

fotos: Jasão e os Argonautas, Medéia, e a entrega do tosão de ouro (velocino de ouro).


Os mitos: O Velocino de Ouro, Jasão e os Argonautas, e Medéia.

O ciclo dos Argonautas se organizou em volta da pessoa de Jasão, herói tipicamente tessaliano, descendente de Eólio. Seu pai, Aesão, ou Esão, era rei de Iolcos que ficava ao pé do monte Pélion. Ele havia sido destronado pelo seu meio-irmão Pelias, filho de Poseidon. Jasão, como a maioria dos heróis lendários, havia sido criado pelo Centauro Quirón, que lhe ensinara, entre outras ciências, a medicina. Quando se tornou adulto, Jasão apresentou-se à corte de Iolcos, sem revelar sua identidade. Coberto com uma pele de pantera segurava duas lanças e tinha o pé esquerdo descalço. Seu tio Pelias, celebrava um sacrifício e quando o viu lembrou-se de um oráculo que lhe aconselhara em tomar cuidado com o "homem de uma sandália só". Perguntou-lhe então, que castigo imporia a um súdito que conspirasse contra seu rei. Jasão respondera que o mandaria conquistar o velocino de ouro. Pelias dissera então, que de acordo com todas as probabilidades ele, Jasão era o súdito e culpado, acabando por condenar a si próprio.

O Velocino de Ouro, na qual sua conquista era tão temível, era então, um carneiro divino alado que Hermes dera de presente a Nefele, a primeira mulher do rei Atamas. Quando Ino a segunda mulher do rei, conseguiu com suas maquinações, que os dois filhos de Nefele, Frixo e Hele, fossem sacrificados para livrar o país de uma pretensa esterilidade, Nefele os dera o carneiro divino, que os levou pelos ares, para salvá-los. Durante a viagem Hele caíra no mar e afogara-se, tomando assim, o estreito, o nome de Helesponto (o mar de Hele). Mas seu irmão Frixo chegou a salvo na região do Cáucaso, em Colcos, onde, no bosque sagrado de Ares, sacrificou o carneiro a Zeus e consagrou o velo animal que era de lã de ouro. O rei de Colcos, Eete guarda ciosamente o velocino.

Esse era o castigo imposto por Pélias a Jasão, a conquista desse velocino. Jasão então começou a organizar a expedição e pediu ajuda a Argos, filho de Frixo. E aconselhado por Atena, Argos começou a construir uma embarcação. Esse barco, A Nave Argos, possuía propriedades maravilhosas. Jasão reuniu um grande número de companheiros, que se chamavam os Argonautas ou navegantes de argos. Tornaram os principais heróis da idade imediatamente anterior à Guerra de Tróia. Os argonautas mais célebres que desempenharam papéis importantes na aventura são o cantor trácio Orfeu, os filhos de Boreas, Calai e Zetes, os filhos de Tíndaro, Castor e Pólux, e seus primos, Idas e Linceu, filhos de Afareu. O adivinho oficial da expedição era Idmon, filho de Arbas.

A viagem começou favorável. A primeira escala foi a ilha de Lemnos, onde nessa época, só encontravam-se mulheres. Estas, devido a uma praga de Afrodite, haviam suprimido a todos os homens e encontravam dificuldades de perpetuar a raça. Os Argonautas foram bem acolhidos e lhe deram filhos. Depois se dirigiram para o Helesponto. O rei dos Doliões, Cizico, os recebeu com hospitalidade em sua terra. Porém, na noite seguinte quando os argonautas continuaram sua viagem ventos contrários os trouxeram de volta e os Doliões, por causa da noite escura, não os reconheceram e investiram contra eles tomando por piratas. Na luta Cizico, o rei, foi morto por Jasão. Quando o dia clareou, todos perceberam o engano e reconheceram seus erros. Os Argonautas, durante três dias fizeram magníficos funerais a o rei e deram jogos fúnebres em sua honra.

Em outra das etapas, no país de Bebricios, Pólux foi desfiado pelo rei Amico e venceu. No dia seguinte, Argo foi apanhada por uma tempestade e obrigada a fazer escala na costa da Tracia, no reino de Fineu. Era este um adivinho cego, a quem os deuses tinham lançado uma singular praga: cada vez que punham a sua frente uma mesa coberta de finos manjares, as Harpias, que são seres rapazes, precipitavam-se sobre eles, e tomavam uma parte e sujavam com seus excrementos o que não podiam levar. Os Argonautas pediram a Fineu que os informasse sobre o resultado da expedição. Mas Fineu só falaria se eles o livrassem das Harpias. Calais e Zetes, que eram alados, foram atrás dos monstros, os alcançando nas ilhas Strofades, lhes fizeram jurar por Stix que nunca mais importunariam o rei. Fineu então revelou aos seus libertadores que ficassem atentos as Rochas Azuis (as Cianéas) que podiam esmagar a sua embarcação, pois eram rochedos errantes que se chocavam uns contra os outros na passagem dos navegantes.

Assim, quando encontram o rochedo os navegantes, para ver a escolha dos deuses, soltaram uma pomba que vôo em direção da Cianéas que se fecharam e só arrancaram uma peninha da cauda da ave. Os argonautas tentaram a passagem e quando as cochas fecharam apenas uma tábua da proa foi danificada. As Cianéas desde dessa época permaneceram imóveis, pois o seu destino queria que o movimento se findasse logo após que uma embarcação passasse por elas. Após algumas outras escalas eis que os argonautas chegam ao reino de Eetes, em Colcos. Jasão expôs o motivo de sua vinda. Eetes não recusou o pedido, mas antes de lhe entregar o velocino de ouro, impôs como condição ao Herói, sem nenhum auxílio, subjugasse dois touros de cascos de bronze que sopravam fogo pelas ventas e de uma velocidade estrema. O rei que esperava que o herói desistisse, acrescentou mais uma prova, deveria com os dois touros lavrar um campo e semear nele os dentes do dragão de Ares.

Jasão sem saber ficou pensado em com venceria esses monstros, quando a filha do rei, Medéia, veio em seu auxílio, deu-lhe um bálsamo mágico com o qual deveria usar para evitar queimaduras e se tornar invulnerável. Assim premunido Jasão conseguiu domar os dois touros, lavrar o campo e semear os dentes. Destes dentes saiu uma messe humana, de guerreiros armados, como lhe havia avisado anteriormente Medéia, Jasão então lançou sobre eles uma pedra, então os guerreiros acusaram-se entre si e mataram-se uns aos outros.

Porém o rei não cumpriu com a sua palavra e estava prestes a incendiar Argo quando Jasão apoderou-se do velocino com a ajuda de Medéia e fugiu. Levou Medéia consigo que por sua vez, levou seu irmão menor Absirto. Para atrasar as buscas do rei, Medéia matou seu irmão espalhando os membros pelo mar. Eetes que se demorara a recolher, quando terminou já era tarde para alcançar os fugitivos.

Os argonautas penetraram de novo no Mediterrâneo. A voz de Argos lhes revelara que Zeus estava muito irritado com o assassínio de Absirto e que eles deviam purificar-se junto da maga Circe, que era irmã de Eetes e, por conseguinte tia da criança e Medéia. Obedecendo, fizeram escala na terra de Circe. Circe os purificou e o navio pode seguir caminho. Atravessando o mar das sereias Orfeu cantou uma melodia tão bela que ninguém teve vontade de ouvir a voz das feiticeiras. Uma tempestade os arrastou para as praias das Sirtas, na costa da Líbia. Tiveram para abrigar-se de transportar o navio nos ombros até o lago Tritão, deus do lago, mostrou-lhes então uma saída pela qual foram ter o mar aberto. De lá quiseram abordar Creta, mas o gigante Talo, cujo corpo era de bronze, proibiu-lhes o acesso da ilha. Então Medéia, com suas bruxarias, tanto fez, que Talo rasgou seu tornozelo nas rochas (seu único ponto vulnerável) e morreu. Os argonautas acamparam a margem depois de e erguerem um santuário a Atenas Minoana. Por fim mais um dia de mar e chegaram de volta a Iolcos.

Mas, as aventuras de Medéia e Jasão não terminaram. Medéia decidiu vingar-se de Pelias e persuadiu suas filhas que poderia rejuvenescer seu pai. Para isso, mostrou-lhes um velho carneiro, Medéia o matou e ferveu-o num caldeirão com ervas mágicas, dali sal um carneirinho novo. Então as filhas de Pelias esquartejaram o pai e o ferveram. Mas, Pelias não mais voltou.

Jasão e Medéia após esse crime foram banidos de Iolcos e retiraram-se para Corinto, onde viveram algum tempo, até o dia em que o rei do país, Creonte, quis dar sua filha em casamento a Jasão. Medéia, sofrendo de amor, fingiu consentir, e entregou a sua rival uma roupa impregnada de venenos que a abrasou e incendiou o palácio todo. Para completar sua vingança a Jasão, matou seus próprios filhos que teve com ele e fugiu num carro volante. No fim da vida, após uma estada em Atenas, junto de Egeu, pai de Teseu, a vemos de novo em Colcos, onde restitui o reino a Eetes, que havia sido despojado pelo irmão Perses.


Leitura do livro Mitologia Grega de Pierre Grimal

sábado, 27 de setembro de 2008


Escrever, Humildade, Técnica

12 05 2008

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Clarice Lispector
Extraído do livro A Descoberta do Mundo, Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1999.

As Máscaras de Clarice



Clarice Lispector encanta por conseguir falar do humano com uma propriedade de quem percebe o corpo como alma e arma dentro das debilidades da condição humana.





Alma e arma. O corpo como possibilidade concreta de expansão ou de prisão do ser? Não conseguimos resposta. Mas corremos para ela, somos de tal modo arrastados pelo seu fascínio, que já não conseguimos vislumbrar a grandeza escondida na falta de resposta.

Talvez tenha sido exatamente essa falta de resposta, que me estimulou na idéia da adaptação da obra para o teatro. Ela surge, portanto, como mais uma das inquietação que me movem numa pesquisa que venho desenvolvendo, já a algum tempo, sobre o ´absurdo´ na condição humana. Segundo Albert Camus o absurdo expressa, antes de tudo, a relação do eu com o mundo, e é experienciado como um divórcio ´entre o homem e a sua vida, entre o ator e o seu cenário´. Ele brota da cisão entre o desejo de unidade, de absoluto, e a pluralidade contraditória das idéias e dos fenômenos; entre a procura de uma salvação capaz de resgatar a finitude da condição humana e o inevitável fracasso que a caracteriza. Escreve Camus que o ´absurdo nasce deste confronto entre o chamamento humano e o desrazoável silêncio do mundo´.

Como nos textos do teatro do absurdo as histórias de Clarice Lispector não trazem grandes acontecimentos; ao contrário, seus personagens são seres imóveis, retidos em teias e em impasses que ultrapassam o meramente cotidiano. Seres adoentados da palavra e que procuram na palavra a cura. Só que a língua é o território da dessemelhança, uma torre de babel, fato que os leva a se defrontar, por fim, com um abismo de perguntas.

Por esta razão, Clarice é a escritora do Eu em pedaços, do olhar para dentro ou do olhar que cerca as criaturas, revelando-lhes os desejos, a ausência deles, as paixões, a ignorância, os mistérios, o sofrimento, a dor de existir. É a escritora da face explodida, condição afinal que define o homem no século 21 e que definiu, também, os dos séculos de guerras e pós guerras.

Tudo isso são inquietações que, juntando-se a outras que perpassam os problemas sociais, valorizam e tornam ainda mais complexa a busca pela compreensão da condição humana e que vem, de alguma forma, refletindo-se incisivamente nos últimos trabalhos que montei. Entre eles: Larilará Macunaíma Saravá, Deus Danado e Ritos do Absurdo, esse último trazendo fragmentos inspirados em textos de Samuel Beckett e Clarice Lispector.

Minha preocupação maior quanto à concepção do espetáculo ´A Hora da Estrela´, baseada, evidentemente, no romance de Clarice Lispector, está em conseguir transpor para o palco a tão almejada simplicidade buscada pela autora quando da criação de seu texto.

Por isso todo o trabalho de direção está sendo centrado na figura do ator que, através do seu corpo, ´sente´, ´interpreta´ e ´age´, por meio das palavra lapidadas de Clarice. Palavras que ´atravessam agudas o ar em busca de ações... palavra é ação´, como ela mesma diz.

De cenário, apenas duas cadeiras, uma mesinha com uma pequena caixa de madeira de onde Rodrigo S.M. tira pequenos adereços para compor, em quanto cria, os seus personagens.

A luz do espetáculo dará a localização quanto ao espaço e ao tempo necessário para o entendimento da obra, mas não será um tempo datado nem um espaço geograficamente localizado. Com isso queremos demarcar o sentimento universal contido na obra. É uma situação que pode acontecer em qualquer canto e em qualquer época. Basta que, para isso, existam dois seres que mesmo não sabendo porque tenham, em si, o sentimento de exclusão do mundo.

Macabéa é alagoana, tem 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela. É totalmente leiga do mundo a sua volta e completamente inconsciente de tudo. Todo os dias ouvia a rádio relógio, porque ´era a rádio perfeita pois dava curtos ensinamentos dos quais talvez algum dia viesse precisar saber´. É feia e mora numa pensão em companhia de 3 moças que são balconistas em uma loja de departamentos. Esse é o perfil de Macabéa realçado por Rodrigo S.M. durante toda a obra. É o perfil, também, de milhares de moças nordestinas que vivem nas grandes cidades. É o macrocosmo refletindo o ´mundo de fora´, tão importante para se falar dessa irracionalidade que é a condição de miséria econômica onde estão mergulhados a grande maioria do povo brasileiro.

Mas Clarice Lispector ansiou trazer Macabéa para se grudar em nós como se grudou nela ´qual melado pegajoso´ . Não seria mais uma anônima, igual a milhares de nordestinos que vivem no Rio ou em outras grandes cidades, ´filhas de um-não-sei-o-quê que vivem com ar de desculpa por ocupar espaço´ e que devido a banalização da fome e da vida a muito deixamos de enxergar. Não, ela seria Macabéa, a nossa Macabéa, da qual não poderíamos fugir e nem fechar fingindo não estar vendo a alienação angustiante e sufocante que permeiam o mundo das milhares de Macabéas.

Nesse fragmento que se segue da Hora da Estrela, ´Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém´, encontra-se o retrato do capitalismo no que ele tem de mais cruel, a coisificação do homem e os homens como peças de máquinas facilmente ´substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam´.

Macabéas, Marias, Zé Ninguéns, ressaltam a falta de sentido de um mundo onde a miséria humana e moral e a não conscientização e não indignação do homem, demarcam o abismo onde cada vez mais nos afundamos. É um grito, um assovio, que atravessa agudo o vento escuro.

Segundo Aristóteles, Tragédia é o gênero teatral em que se expressa o conflito entre a vontade humana, por um lado, e os desígnios inelutáveis do destino, por outro. A decisão trágica se dá, portanto, entre os desígnios dos deuses e os projetos ou as paixões dos homens. Exprime o debate entre o passado mitológico e o presente da pólis, ou cidade.

Já Hegel, na sua estética diz: Aquilo que de fato interessa no drama, na tragédia e na comédia antiga é o universal e essencial da finalidade que os indivíduos realizam.

Nossa vida contemporânea, portanto, faz com que nossa carência esteja, ao mesmo tempo, em manter pontos de vista universais e em ajustar o particular, seja no que se refere à vontade seja no que se refere ao bom senso.

Estando nosso mundo limitado a uma pequena parcela do todo, isso impede que o sujeito se identifique com as grandes forças éticas e estas tenham neste sujeito singular o seu representante, que seria uma das características principais da tragédia antiga e o que, de alguma forma, afastaria Clarice da essência trágica no sentido clássico do termo.

As obras de Clarice são romances sem ação externa, voltada para o interior das personagens. Possui um caráter de introspecção, onde a autora mergulha em si mesma através de personagens construídas a partir de dores e angústia de seres humanos diante de um mundo que não os levam a realizações plenas. São verdadeiras elaborações existencialistas que refletem questões individuais e coletivas das grandes massas no universo mínimo de cada indivíduo. Isso colocaria, de alguma forma, Clarice dentro do que seria o sentido mais amplo e atual do termo trágico.

Mas a tragédia em Clarice, particularmente nessa obra, consistiu em ter que escrever um livro, como ´A Hora da Estrela´, que é uma verdadeira leitura da própria arte literária, dentro de um mundo caótico. Um mundo onde a arte parece representar muito pouco diante da fome, do medo e da dor coletiva dos milhares de humilhados e explorados do nosso mundo contemporâneo.

As personagens de Clarice Lispector são seres em buscas da revelação do mundo interior e desconhecido de nós mesmos. A existência exterior, enquanto percepção dos valores sociais opressivos, não é fator determinante nas suas obras, só tendo seu real significado enquanto causador de uma realidade interior eternizada pela possibilidade de uma descoberta completa do ser e do nada.

Mas isso, a meu ver, não minimiza nem desvaloriza a complexidade da obra de Clarice, nem tampouco distancia alienadamente a escritora do mundo a sua volta. É apenas um outro olhar, um ângulo diferente que nos faz mergulhar no âmago de suas personagens e conseqüentemente de suas vidas.

O que então continua nos atraindo para suas personagens? A profunda identificação com as dores e angustias existenciais. Aflições que nos remetem as dores e angustias do sentimento do universal, do sentimento de pertencer ao humano. Percalços da existência que não devem conter juízos de valores porque não são menor ou maior que nada, são apenas obstáculos que nos mostram as fragilidades humanas.

Herê Aquino
Diretora de Teatro

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Curral Grande" É essa a história que vamos contar?

Foto: Velma Zehd

"A fim de proteger a cidade de Fortaleza de uma invasão maciça de retirantes miseráveis,

o poder público decide aprisionar os flagelados em Campos de Concentração.

Os sertanejos presos batizam os campos de....“Currais do Governo".


Gostaríamos de convidá-lo para a apresentação do espetáculo teatral "CURRAL GRANDE", dentro da programação do XV Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (confira a programação do Festival em http://agua.art.br/fnt2008/programacao.php). Com texto do dramaturgo cearense Marcos Barbosa, e direção de Joca Andrade, o espetáculo marca a formatura da turma de 2007 do CAD (Curso de Arte Dramática da UFC).

Espetáculo CURRAL GRANDE
Texto: Marcos Barbosa
Direção: Joca Andrade
Assistente de Direção e Preparação Vocal: Kelva Cristina
Consultoria de Direção: Ricardo Guilherme e Ghil Brandão

Elenco: Annalies Borges, Débora Frota, Diego Mesquita, Dória Karenina, João Paulo Pinho, José de Ipanema, Juliana Veras, Luiz Otávio Queiroz, Luzilângela Nunes, Marina Brito, Nataly Rocha, Roberta Bernardo, Raimundo Nonato, Thiago Braga

DATA: 20/09/2008 (SÁBADO)
LOCAL: Teatro Rachel de Queiroz (Teatrinho) - Guaramiranga
HORÁRIO: 19:30hs

Duração: 1h10min
Iluminação: Neto Brasil
Figurino: Valéria Albuquerque e Li Mendes
Coordenador Musical: Poty Fontenelle

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CURRAL GRANDE


"CURRAL GRANDE"


O ano de 1932 foi marcado por um cenário de terror, fome, flagelo e pela seca que levou inúmeras famílias a abandonarem suas terras. Os avanços da seca e da peste desencadeiam o estabelecimento de campos de concentração, conhecidos como currais do governo, onde os retirantes eram forçados a confinar-se. O resultado dessa política foi a dizimação de milhares de cearenses, mortos pela fome e por doenças.

Texto do autor cearense Marcos Barbosa e Direção de Joca Andrade

Assistente de Direção e Preparação Vocal: Kelva Cristina

Assistente de Direção: Ghil Brandão

Consultoria de Direção: Ricardo Guilherme

Iluminação: Neto Brasil

Figurino: Valéria Albuquerque e Li Mendes

Coordenador Musical: Poty Fontenelle

Elenco: Annalies Borges, Debora Frota, Diego Mesquita, Dória Karerina, Germana Cavalcante, João Paulo Pinho, José de Ipanema Brasil, Juliana Veras, Luiz Otávio Queiroz, Luzilângela Nunes, Marina Brito, Nataly Rocha, Raimundo Nonato, Roberta Bernardo, Thiago Braga.

ENTRADA FRANCA

Sábado (06/09/2008) e domingo (07/09/2008)

Local: Sala Nadir Papi Sabóia (Anexo do Theatro Jośe de Alencar)

Horário: 19:00hs


Guimarães Rosa: veredas e travessias















(Matéria retirada do Jornal Diário do Nordeste, publicada em 06 de julho de 2008)

Os Grupos de Teatro Expressões Humanas e Teatro Vitrine - ambos de Fortaleza -, por conta do centenário de nascimento de Guimarães Rosa, resolveram mergulhar na obra do escritor mineiro, em busca de captar-lhe o engenho criador e, a partir daí, construir um texto dramático, inspirando no metafórico e universal sertão que se desenha de dentro e fora do homem. O intuito é o de recriar a literatura e brincar com a reinvenção da oralidade no teatro. Eis o motivo central dessa edição.

Dilatar enigmaticamente o micro para se chegar ao macro e vice-versa; sair do nada para se chegar ao tudo e novamente ao nada num eterno recomeçar, numa travessia silenciosa que se faz circular, repetitiva, ritualística; é assim, que essa aparente irracionalidade constitui-se em permanente fonte de poesia: o que existe dilui-se, desintegra-se; o que não há toma forma e passa a agir, recriando-se. Para valorizar essa concepção, que ora se faz mítica, ora se faz real, pesquisamos ´O Mito do Eterno Retorno´ de Mircea Eliade que ilustra, no espetáculo, a construção desse cosmos onde o real por excelência é o sagrado. Mircea Eliade diz que ´Qualquer território ocupado com vista à fixação ou à sua utilização como espaço vital é previamente transformado de caos em cosmos; isto é, por um ritual, é-lhe conferida uma forma que o torna real.´

Sabe o nosso autor, melhor do que ninguém, fomentar um novo olhar diferenciado e crítico sobre esse pedacinho de universo para, a partir dele, chegar aos mistérios e grandezas feéricas do mundo, onde ´mandavam a audácia e a coragem, e o mundo todo, e o inexplicável e o irracional, e a bondade e a maldade, e o destino e o demônio, e o que o homem de si mesmo não sabe, isto é, as suas profundezas.´

Veredas do inefável

Carlos Drummond de Andrade, outro genial escritor, também penetra esse mundo particular de Guimarães Rosa para tentar nos dizer o indizível, para nos narrar o inenarrável. ´ No final, restam apenas pontos de interrogação, a nos mostrar que esse mundo de fantasia e realidade do sertão mineiro ainda é um mistério a ser desvendado. O sertão místico, a recriação da fala do sertanejo, o poder de descobrir a quinta face, o narrador o inenarrável, o responder- perguntar levando à reflexão, o pacto com o diabo: esse mistério de Guimarães Rosa.´

É exatamente esse mistério do artista que estamos a procurar nesse espetáculo, não para desvendá-lo ou consumi-lo secamente, mas para nos embrenharmos em seus encantamentos que se prolongam nas perguntas, por exemplo, de Riobaldo sobre o sentido da existência humana ou dos grandes mistérios do mundo. Nesse sentido, o ficcionista João Guimarães Rosa, à semelhança da escritura de Clarice Lispector, está contido onde não mais conseguimos calcular a grandeza que se abisma na falta das respostas, uma vez que ambos percorrem a atmosfera pastosa da condição humana.

Os rumos da travessia

A travessia proposta por Guimarães é uma aventura que se propõe ora particular, pequena e próxima, ora universal e infinita. ´O senhor tolere, isto é o sertão... Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima.´ Ou ´O sertão é o mundo´ e ´O sertão é dentro da gente´. Quando o autor se propõe ao jogo do desconhecido ele se lança ao precipício feito uma estrela cadente. Nesse mergulho, ele pára, retirando do fundo do poço, o esplendor do maravilhoso que acaba por dar um novo significado ao cobiçado e insignificante pão nosso de cada dia.

HERÊ AQUINO*
Colaboradora

*Diretora de Teatro

"... a gente morre é para provar que viveu(...) As pessoas não morrem, ficam encantadas."


Como já dizia Guimarães Rosa...

Está aí ela... encantada, mágica, eterna... dentro de mim...
Eis a minha inspiração, eis meu aprendizado de vida...
Delicada, simples, bela, encantadora... está presente em mim...
de alguma forma... está!

Minha presença.