Ouvi um barulhinho longe. Longe como estrada sem fim de poeira vermelha.
Um barulhinho absurdamente inacabado, que corria.
Ouvi um barulhinho de água passando na minha mão. Entre os encontros dos meus dedos.
Entre os riscos tortos das minhas mãos.
O pensamento era água corrente. Parecia um canto.
Tinha cor, igual a folha que balança.
Acordei.
Mal acostumei. E todo dia queria eu, acordar-me inteira nesse barulhinho.
Um dia, veio uma mão pesada pousar no meu ombro.
E de voz marcada ela me disse: Exagero! Exagero! - saiu com o vento.
Limpei com um sopro o peso que cobria meu ombro.
Retruquei em voz baixa e dentro do peito algo que nem eu pude escutar.
Fechei um grito entre as minhas mãos, abri a janela e joguei no ar.
Primeiro pedaço de mim a ganhar liberdade.
Olhei a janela e escrevi palavras adormecidas do meu querer.
Escrevi, escrevi, até elas ficarem com dó de mim. Sentei encostada na parede. E deixei cair um choro silencioso.
Virei o lado do disco.
Tocava a voz do barulhinho d'água.
Adormeci sorrindo e acordei pra vida inteira.
