segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eu e Água



Ouvi um barulhinho longe. Longe como estrada sem fim de poeira vermelha.
Um barulhinho absurdamente inacabado, que corria.
Ouvi um barulhinho de água passando na minha mão. Entre os encontros dos meus dedos.
Entre os riscos tortos das minhas mãos.

O pensamento era água corrente. Parecia um canto.
Tinha cor, igual a folha que balança.
Acordei.
Mal acostumei. E todo dia queria eu, acordar-me inteira nesse barulhinho.

Um dia, veio uma mão pesada pousar no meu ombro.
E de voz marcada ela me disse: Exagero! Exagero! - saiu com o vento.
Limpei com um sopro o peso que cobria meu ombro.
Retruquei em voz baixa e dentro do peito algo que nem eu pude escutar.

Fechei um grito entre as minhas mãos, abri a janela e joguei no ar.
Primeiro pedaço de mim a ganhar liberdade.
Olhei a janela e escrevi palavras adormecidas do meu querer.
Escrevi, escrevi, até elas ficarem com dó de mim. Sentei encostada na parede. E deixei cair um choro silencioso.

Virei o lado do disco.
Tocava a voz do barulhinho d'água.

Adormeci sorrindo e acordei pra vida inteira.







segunda-feira, 8 de agosto de 2011

precisa-se de um novo post.




'nada é pra já.'

já também é espera. assim como o som espera o tempo.
cada segundo de música é uma espera.
cada palavra de uma poesia é uma espera.
cada coisa que eu disse foi uma espera.

mas eu não espero.
por que eu desconheço. e o que eu desconheço, não tem tempo.
não para mim.

eu odeio esperas. e ultimamente elas estão urgentemente à minha procura.
nunca vi uma espera derramar-se numa urgência.
então o passo se desfaz, de tão urgente ele não se completa.
Sabe o que é isso? É quando a gente não sabe o valor de uma passagem.
É quando a gente não sabe o valor do que não acontece.
O valor do que fica à beira.
Valor de urgência desmedida. que se finda, talvez no tempo preciso.

estou falando de tudo aquilo que vivemos. um encontro. um aviso. uma conversa.
ainda: uma amizade, um quase amor, um livro de que se goste.

ou um lugar, por duas vezes ele mesmo.

tudo que se escreve para falar de tempo, de urgência, de espera deve-se conter vírgula.

nunca tinha percebido a urgência tão próxima da espera,
e nem mesmo que elas duas coubessem em tantos silêncios.

mas ainda espero que elas fiquem mesmo guardadas como no fundo de um armário.
em silêncio profundo.
em absoluto estado de tempo e dormência
e feto
e pedra
e vírgula ,