sábado, 5 de novembro de 2011

Quase morta.

'Bem mais e melhor que você.'
Respira fundo e acorda de um pesadelo. Quase que afogada por ele, quase que dolorida por ele.
Não foi de abandono nem mágoa. Foi pesadelo comum, fictício. Mas tomou-lhe o fôlego.
Apenas foi algo que lhe proporcionara uma emoção naquela manhã. Para que o coração batesse mais forte, latejando quente. Queimando desde a boca do estômago, e ela então sentisse: estou viva!

Susto! Era mania sua dramatizar até pequenos sustos! Vontade gutural de sentir-se emocionada em tudo.
Como se o fio de cada dia, fosse o último fio da vida. Desses fios que cortam, ferem.
Desarmada, arranhada, assustada abriu a boca e disse: 'Mal sei como é viver, e amanheço assim quase morta?'




Mas, quanta angústia nessas palavras, nessas perguntas, pensamentos!
É que não sabemos viver sem o mistério. Sem cantar o mistério. Sem escrever sombrio os pensamentos difíceis que nos surgem.

Sim, ela pensa assim como eu. Acordar de um pesadelo sem que estejamos nem um pouco dormindo.

Uma confissão. Uma decepção. Um telefonema. Um novo amor.
Teus beijos. Teus erros. Tua raiva. Minha Raiva.

Por desejo, não por que te quero.

Então, essa extensão exagerada de palavras não é uma carta de amor.
É uma história fictícia de um pesadelo fictício.
Um deleite em pensamentos que nunca existiu.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eu e Água



Ouvi um barulhinho longe. Longe como estrada sem fim de poeira vermelha.
Um barulhinho absurdamente inacabado, que corria.
Ouvi um barulhinho de água passando na minha mão. Entre os encontros dos meus dedos.
Entre os riscos tortos das minhas mãos.

O pensamento era água corrente. Parecia um canto.
Tinha cor, igual a folha que balança.
Acordei.
Mal acostumei. E todo dia queria eu, acordar-me inteira nesse barulhinho.

Um dia, veio uma mão pesada pousar no meu ombro.
E de voz marcada ela me disse: Exagero! Exagero! - saiu com o vento.
Limpei com um sopro o peso que cobria meu ombro.
Retruquei em voz baixa e dentro do peito algo que nem eu pude escutar.

Fechei um grito entre as minhas mãos, abri a janela e joguei no ar.
Primeiro pedaço de mim a ganhar liberdade.
Olhei a janela e escrevi palavras adormecidas do meu querer.
Escrevi, escrevi, até elas ficarem com dó de mim. Sentei encostada na parede. E deixei cair um choro silencioso.

Virei o lado do disco.
Tocava a voz do barulhinho d'água.

Adormeci sorrindo e acordei pra vida inteira.







segunda-feira, 8 de agosto de 2011

precisa-se de um novo post.




'nada é pra já.'

já também é espera. assim como o som espera o tempo.
cada segundo de música é uma espera.
cada palavra de uma poesia é uma espera.
cada coisa que eu disse foi uma espera.

mas eu não espero.
por que eu desconheço. e o que eu desconheço, não tem tempo.
não para mim.

eu odeio esperas. e ultimamente elas estão urgentemente à minha procura.
nunca vi uma espera derramar-se numa urgência.
então o passo se desfaz, de tão urgente ele não se completa.
Sabe o que é isso? É quando a gente não sabe o valor de uma passagem.
É quando a gente não sabe o valor do que não acontece.
O valor do que fica à beira.
Valor de urgência desmedida. que se finda, talvez no tempo preciso.

estou falando de tudo aquilo que vivemos. um encontro. um aviso. uma conversa.
ainda: uma amizade, um quase amor, um livro de que se goste.

ou um lugar, por duas vezes ele mesmo.

tudo que se escreve para falar de tempo, de urgência, de espera deve-se conter vírgula.

nunca tinha percebido a urgência tão próxima da espera,
e nem mesmo que elas duas coubessem em tantos silêncios.

mas ainda espero que elas fiquem mesmo guardadas como no fundo de um armário.
em silêncio profundo.
em absoluto estado de tempo e dormência
e feto
e pedra
e vírgula ,


quinta-feira, 28 de julho de 2011

no meio fio de uma oração.


quer um pedacinho do que se chama felicidade?

para que eles com estes sorrisos me iluminem na vida. hoje. amanhã. e sempre.



eu não havia pensado que um dia na minha vida possa existir um recomeço.
na verdade não havia pensado em mudança. não havia.
e incertamente não penso.

Como é que a gente pensa numa coisa que ociosamente pensamos em não pensá-la?
isso parece soar estranho.
ou parece ser filosofia barata.

mas, o que acontece é que no meio de um pedaço de minha vida, eu a reparto em várias.
na ânsia de viver tudo e todos ao mesmo tempo.
como vou saber da verdade, se ela não se mostra?

a verdade é um troço muito esquisito. como sabê-la? não existe forma ou fórmula. a verdade só é verdade quando vivida. quando experimentada.

eu acho que quero saber a verdade. eu acho que tenho medo de sabê-la.

eu acho que quero conversar. eu acho que preciso.
ou não.

é que eu sempre preciso da urgência. sempre preciso e padeço na incerteza.
sempre caio em cheio no extremo da coisa que ainda não é.
da coisa.

e como se eu andasse em pleno desequilíbrio estético da minha vida... o equilíbrio completa a imperfeição dela. de forma externa, alegria e beleza. interna e assustadoramente o desequilíbrio me consome, e corrói a carne do invisível corpo do que eu sinto.
parece um sopro. acontece levemente até tornasse vento. circunferência de um tufão que cresce aqui dentro.

abate-me novamente os pensamentos pequenos de um ser humano em sua ignorância contida sobre o amor.
será amor?

em uma mesma frase não se deve conter a palavra 'será' e a palavra 'amor'.

aliás amor não é palavra.

domingo, 10 de julho de 2011

O que falar, quando é pra sentir?






Vem assim que toca, e aí eu percebo que não é algo que tem fim. Sempre volta.

Estava sentada aqui na varanda, e um beija-flor veio visitá-las, as flores vermelhas. Sim elas são vermelhas. Desde pequena que sou alucinada por flores vermelhas, flores e não rosas.

ele veio, diretamente pra elas, uma por uma. um beijo. sugado.
é por que ele retira o que dela precisa.

Aí eu pensei, será que é assim mesmo o amor? Retirar do outro aquilo que precisamos.
é um pensamento egoísta. mas é verdadeiro.
Mas. Amor é retirada?

O amor é egoísta?

Olhei mais aguçadamente para aquele processo de amor natural entre a flor e a ave.
E então, por que que ela intacta o deixa sugar-lhe tudo?
Ela está ali parada, e nada lhe fere. É um beijo,
uma retirada,
um egoísmo,
um abandono.

E ele vai e não a beija mais.

Por que no amor: um retira e o outro doa. Por isso o amor dói.


terça-feira, 17 de maio de 2011

Sentir, singularmente meu.



Assim, de leve você sente a primeira fisgada no peito.
No peito diretamente não, na "boca do estômago", no âmago.
Já sabemos nesse ponto, onde chegamos. No amor.

Não no amor já construído, mas daquele inquieto amor inocente,
medroso, onde nos falta palavras para explicá-lo. Para dizê-lo.

Pode até não ser mesmo amor, mas como saber se não, nunca, ninguém definiu o que é ou não amor.

Amor é aquilo do que meu olhar cuida.

Posso não querer vivê-lo, mas o amor já vive em mim. Onde há vida, repousa inquieto o amor.
E amor se vive de inúmeras formas, desde o âmago até a boca. Até o toque. Até o prazer.
E ainda, até, somente até, a memória.

Só amo por que tenho memória. Por que ela fixa nas linhas do meu corpo, um sentido íntimo daquilo que somente de mim exala, daquele amor que é sim, único meu.

Amor não é tudo igual.
Claro, é obvio demais para escrever aqui.
Por que tudo aquilo que sou, que eu vivi, e senti, é singularmente meu.

Por tanto, me deixe hoje, amanhã e sempre: amar do meu jeito, assim como você ama do seu.

Quem tem o "direito" de retirar-me o "direito" de amar?


Pelo dia Mundial de Combate a Homofobia!
Pela diversidade da vida!

...Ame do seu jeito, que eu amo do meu...