terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A vida que me é dada.




Agogô...
Seu batuque leve e remexido.
Um som que desenha um caminhar. 

Eu caminho assim, feito água mole.
E é de água essa vida.
Não se sabe pra onde esse rio corre.
Nem se sabe quando a gente vai se afogar.
Nem se vê como e quanto tempo ele passa.

É água. 
Forte, calma, bravia, cheinha, pouquinha...
Um arrepio, um silêncio.

Vida como onda besta.
Lava e leva.

Então vem um pensamento.
Se perceber parado com água-viva.
Prestar atenção numa respiração de um corpo que é só matéria.
E tudo a terra vem.
E tudo a terra come.
O que se segue?

Aquilo que se remexia como batuque de agogô, cadê?
Matéria não era.
Era água, tenho certeza.
Água não morre. Água seca.
Mas, depois brota feito mato no chão.
Depois, cai do céu cheinha feito manga madura.
Tchá! Cheinha.

A natureza que tudo dá. A natureza que tudo leva.
Estou intrigada dela.

"Não me tome o que já me deu, o que já é meu." - Eu pediria.
Mas me desculpe.
Eu sei que essa vida é de brinquedo.
E continua.
Continua.
Nua.


domingo, 8 de junho de 2014

aos que sonham.

decidiu se casar.
mas não era com uma pessoa, não.
decidiu se casar com a liberdade.

já pensou em um lugar com muito verde e água por perto, barro vermelho e tulipas na janela.
já pensou em escrever um livro com poesias.
pensou em viajar e conhecer outras culturas.
em cantar e encantar.

e assim, de repente: se deita na rede numa varandinha pequena, mas com um céu gigante, abre um pequeno livro e sonha.

sonha para acordar sua liberdade.
a busca, apenas no pensamento, é infinita.
e o que é mais livre senão aquilo que não se acaba?
aquilo que não te roubam as ideias.






segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Há um lugar vazio.


Era como se... lançasse meu corpo ao desconhecido. 
Ascendesse uma flor.
De uma cor que nem lembro qual é.
Talvez amarelo.

Aí, deita ao meu colo. O sopro de respiração arrepia minhas pernas.
Envolve e aquece de imediato os músculos, lacrimeja o olhar, ofega o corpo inteiro. Suor. Dilatador e febril.

O sol se põe.
Já não está mais amarelo meu coração. E tudo se repetiu, de igual forma. 

Devorando alvoradas.

Mas onde havia calor, hoje é inverno.

Me entendo. Me visto. E ganho a rua... Olho pra minha esquerda e encaro o abismo. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Domínio.

Muito ódio. Muito ópio. Muito do óbvio.
O que está acontecendo com a gente?

As palavras não soam mais calmaria, não deslizam mais como água,
não cariciam mais nosso corpo.

Elas só mentem, somente.
Ressoam agudos absurdos, surdos de raiva e rancor.

Jogo de Poder, salve-se quem Puder!

domingo, 22 de setembro de 2013

Daquilo que não há sinônimo.




É que tento fazer uma história.
Uma biografia dos meus sonhos.

Mas, a fôrma limita o bolo.
E as coisas tornam-se finitas, presas as margens.
As coisas no sentido de tudo.
E tudo no sentido do que sentimos.
E o que sentimos no sentido do que queremos.

Existe alguma explicação para quando sentimos que queremos tudo?
Ou há no que sentimos alguma explicação para quando não queremos nada?

Não, não há sentido pra estas coisas.
Porque coisa é uma coisa que não tem explicação.
Os sonhos são coisas.
E são também coisas o que nós somos.

Uma partícula miserável do universo.

Não quero parecer pessimista.
Não sou a primeira pessoa a pensar assim.
Mas, não existe no mundo aquela 'coisa' que chamamos liberdade.
Todas as estranhas formas que vivemos nos limitam de sentidos.
E o que existe no que queremos são possíveis imagens que nos projetam.

Não. Eu estou enganada!

Há na assadura do bolo, aquele cheiro que percorre a casa e invade a sala do vizinho.
Há nesse cheiro, aquela vontade doce que enche a boca d'água.
Há naquela boca o prazer do sabor.
Há no sabor um sentido de desejo.

O que eu desejo não é o que eu vejo.
Nada que limita, reprime o cheiro da liberdade.
Talvez por isso, necessitamos sonhar.




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Fome

Ontem deixei um choro
Amarrado à minha garganta
E ao bocejar hoje, pela manhã,
Engoli.

O fato é que não tenho ideia
De como digerir uma tristeza,
Que mal sabia eu,
O que ela era.

Eu acho que escondo
Todos os dias
Aquele verbo
Que alimenta a vida.

Porque parece que eu
Não estou sentindo
Nem as gotas de um banho de chuva
Que tomei agora a tarde.

Ela, que talvez banhasse
Os meus espaços vazios
Pingava compassadamente
Pra não tocar nem meus olhos.

Eu não comi minha alegria
Eu não comi meu sabor
Eu não comi o que acredito
Eu não comi minha coragem.

Senão, estaria tudo dentro de mim
Queimando junto,
Junto à acidez do meu estômago
E eu me sentiria viva.

E viva não estou!
Não estou, porque não há verdade
Que dê limite ao meu corpo:
Aos poucos, acho que deixo ele ir...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

comentário inútil

voz de sal.
e salgada saiu na fala por que falava de mim pra outro.
e eu me calei.
aquela água do mar que você engole depois de um mergulho ruim.
não sei onde vai minha vontade. ela vive em mim, mas não sei onde ela se esconde.
ela se esconde. mesmo quando não a procuro.
 não tem nada doce aqui. é gosto de sal mesmo.
e áspero, por que parece não pronunciar-me.

não tem querer, nem vontade de escrever.